21/03/2016

A Mochila

No meu canto pude ouvir vozes ainda não conhecidas chegando meio desconfiadas, ansiosas e até acanhadas.
Logo pude ver todos andando de um lado para o outro preparando sua bagagem pessoal e do grupo. Também vi algumas palestras conhecidas e outras até novas para mim.
Interessante uma comunidade se formando por pessoas tão diferentes e ao mesmo tão iguais nas expectativas.
Cada um tem pensamentos expostos e ações para serem aceitos e reconhecidos rapidamente ao grupo.
No dia seguinte com mochilas prontas, carta e bússolas nas mãos, orientações, grupos de barracas e refeições divididos, embarcamos para darmos início a caminhada pela Serra do Cipó.
Um dos alunos, não se sente bem e logo o grupo divide a atenção no cuidado com ele e no avanço da expedição.
Sem muito caminhar por causa da saúde do companheiro, com aulas sobre orientação e navegação, logo é montado o primeiro acampamento. Nosso companheiro de viagem piora e deve ser resgatado na manhã seguinte mudando a configuração do grupo e de algumas ações.
Amanhece, café da manhã, desmonte do acampamento e logo vem o momento de despedida. Esta nova comunidade em formação já tem um sentimento de um evento especial, a despedida de um membro. O que passa em cada coração?
Reinicia a caminhada e o tempo mostra sinais de chuva e como são lindos estes sinais. A chuva cai e protegidos pela cobertura da cozinha o grupo almoça e em seguida recebe aulas sobre tipos de tempestades.
Alguns parecem sentir o peso da mochila e observo quão desajeitados estão alguns para subir e descer a mochila das costas. Em suas mochilas estão suas roupas;equipamentos de uso pessoal; lanterna; itens de higiene pessoal; água; isolante térmico; saco de dormir... Também de uso comunitário: barraca; alimentos (o que mais pesa); utensílios e equipamentos de cozinha; resíduos que sobram após cada acampamento...
A cada dia o grupo se fortalecia nas suas relações através do experimentar as tomadas de decisões, vitórias, frustrações, aprendizado técnico, mudanças. Observo, mais uma vez, que o fortalecimento das relações não significam necessariamente menos conflitos. São, no entanto, colocados a prova na sua honestidade, respeito, ética, o cuidar do outro, nas habilidades individuais...
A cada passo, acampamento, rio, montanha, cânion e vale podia conhecer melhor cada pessoa desta expedição, mas um me chamou mais a atenção. Foi o Sóstenes. Que bom conhecê-lo e descobrir um pouco da sua relação com a família, com Deus, consigo mesmo e com este grupo. Sempre calado, fez parte do grupo do seu jeito. Até acho que deveria falar mais.
Suportou as dificuldades escritas pelo ambiente natural, que inicialmente acreditava seria o mais difícil, mas o que mais entendeu que o complexo não era o desafio da montanha mas sim os relacionamentos. A cada dificuldade vencida, mais moral pra próxima.
Passando o tempo me tornava mais próximo dele conhecendo-o mais. Pude ver crescendo sua adaptação ao ar livre, sua amizade com o grupo, seu desenvolvimento físico e técnico, seu prazer em curtir a bela natureza, a alegria em vencer cada dia, mas também identifiquei algumas frustrações. Nos primeiros dias compartilhou comigo questionamentos do tipo: “o que estou fazendo aqui neste lugar e nesta proposta?” Dividiu que preferia caminhar do que gastar tempo em algumas discussões tão fáceis de se tomar uma decisão, mas que dependia da afirmação de mentes incrivelmente diferentes. Posso entender perfeitamente este pensamento. Mas discordo, pois o confronto, egoísta ou não, testa e amadurece quem somos e também fornece a chance de ouvir e entender o pensamento do outro.
Passando dos cinquenta quilômetros nas montanhas, chegamos ao ponto onde deveríamos estar para que pudéssemos reabastecer e continuar nossa jornada. Uma parte do grupo sai ao encontro da equipe de apoio para buscar mantimentos e alguns equipamentos.
Permanecemos neste local por dois dias, sendo que um deles aconteceu a incrível experiência do "Solo" (quando cada pessoa se afasta do grupo e acampa só passando uma noite e parte do dia isolado). Ao voltar todos estão com nova experiência, emoções, aprendizado e muitas histórias que parecem fortalecer depois desta atividade.
Acampamento desmontado e mais uma vez o grupo sai em direção ao destino final. Cachoeiras, vales, cânions, montanhas, rios, pássaros e tantas imagens inesquecíveis.
Fizemos mais dois acampamentos sendo o último deles com ataque ao cume, como parte do planejado e desejado. Saímos todos pela manhã para a grande conquista e voltamos ao final do dia como grandes heróis e cheios de confiança.
A adaptação e o sucesso da experiência ao ar livre dependem do fator tempo, da experiência planejada, do equipamento adequado, respeito aos limites pessoais e do grupo, respeito a natureza...
Finalmente chegamos ao ponto final expedição. Logo vem a avaliação e comemoração e muitas histórias pelo feito desta viagem.
Em poucas vezes tive afinidade com uma pessoa como tive com este mais novo amigo. Estivemos sempre próximos e testemunhei suas dificuldades, alegrias, frustrações, vitórias, sentimentos vários proporcionados por uma expedição fantástica. Foram pouco mais do cem quilômetros em quatorze dias juntos, mas parecem que foram bem mais, devido as profundas experiências.
A todos que estiveram lá, antes desconhecidos e agora amigos, carrego lembranças e marcas enquanto cumpria o meu papel de levar toda a bagagem de um montanhista.
Sou simplesmente uma mochila de noventa litros, azul, surrada e que esteve lá. Carrego muitos tipos de bagagem, mas não as que permanecem coração e na lembrança.