21/03/2016

Lanterna

Fui equipante num acampamento e tive cinco acampantes pré-adolescentes, filhos de missionários estrangeiros e todos eram amigos antes de chegarem ao acampamento. Isso me deixava em desigualdade no iniciar o relacionamento com eles.
O acampamento acontecia num seminário, que durante os fins de semana e férias funcionava também como acampamento. Na mesma área moravam missionários (acho que canadenses) que trabalhavam no seminário e parte dos meus acampantes eram filhos de alguns deles.
Tinha viajado de ônibus por mais de mil quilômetros, vindo de outro acampamento de férias no qual tinha trabalhado durante um mês. Estava cansado, num local desconhecido, colegas de equipe desconhecidos, filosofia e regras diferentes das dos acampamentos que normalmente trabalhara e acampantes com muita energia pra toda uma noite. Era apenas a minha primeira noite e desejava ter paciência e energia para iniciar os primeiros passos na conquista da amizade dos meus acampantes.
Aqueles meninos levaram para o quarto suas lanternas, alguns brinquedos e muitos planos. Fizemos a devocional com dificuldades, apresentei-me como conselheiro deles naquela semana. Estavam doidos para apagarmos a luzes iniciando sua diversão, que em parte era torturar o seu conselheiro.
Aguentei com valentia parte da noite até que pedi de maneira mais dura para que fizessem silêncio, ou tomaria as lanternas. Claro que não acreditaram em mim. Depois de um tempo acendi a luz novamente, desci do beliche e peguei a primeira lanterna que encontrei.
Apaguei a luz, deitei-me e conseguimos um pouco de paz, mas o clima no quarto já não era mais favorável a mim, óbvio.
No dia seguinte, após o café da manhã, apareceu um senhor no meu quarto e reclamou por ter tomado a lanterna do seu filho. Era um dos missionários que moravam ali. Sua abordagem foi de que eu estava errado e deveria devolver a lanterna para seu filho. Nunca passou por minha cabeça ficar com a lanterna do acampante, mas entendi que era isto que pensara de mim. A lanterna seria devolvida de qualquer maneira. Expliquei-lhe as minhas razões por ter pego a lanterna, mas não ficou satisfeito, o que deixou os meninos ainda mais distantes de mim.
Não tive sucesso com aqueles acampantes e dificilmente se lembrarão de mim como alguém que os ajudou naquela semana, no seu caminhar com Jesus. Uma frustração e uma sensação de tempo perdido viajando para tão longe, dedicado minhas férias e habilidades.
A primeira noite no acampamento como conselheiro é determinante para o resto da semana com os acampantes.